Ainda morando em Miami, a vida semi-estabilizada e com um pouco mais de base que no início de sua aventura nas terras do Tio Sam, Rapha está mais que pronto para essa temporada de Atlantic, o último funil ainda denominado categoria “de desenvolvimento”, e quem passar primeiro desse vai disputar as freadas nas categorias top: a Atlantic é o último passo antes dos 750 cavalos da ChampCar, onde ele espera debutar em 2007, e o vencedor do campeonato ganha 2 milhões de dólares para o ano seguinte na categoria maior. Batemos um bom papo sobre corridas e a vida dele aqui nos EUA, que você pode ler abaixo:
O que você mais estranhou aqui nos EUA, na pista e fora?
RM- Aqui o piloto tem mais categorias pra andar, pelo menos nas categoria de acesso. Isso facilita um pouco até um certo nível. Tem a Skip National, FFord/Cooper, FBMW, FRenault (até o ano passado), Star Mazda, Atlantic, IPS, etc.
O que você acha da competição dos americanos, do nível dos campeonatos ?
RM- Todos os anos que andei aqui nos EUA, todos os campeonatos que participei foram muito bem disputados, especialmente no ano passado, no Norte Americano da Pro Mazda, que não foi fácil.
O que está achando da Atlantic ?
RM- Acho que a Atlantic é uma das categorias de acesso mais disputadas e bem vistas no mundo inteiro, e esse ano está extremamente concorrida, com o campeão recebendo 2 Milhões de dólares para usar na ChampCar.
O que você faz de preparo físico ?
RM- Ando de bicicleta, corro a pé, ando de kart, faço musculação. O que tiver pela frente eu estou fazendo.
Superstições ?
RM- Só entro no carro de corrida pelo lado esquerdo. (monoposto)
O que você mais gosta de fazer fora do carro ?
RM- Sair com amigos, fazer trilha (de mountain bike).
Corrida mais memorável ?
RM- Laguna Seca, a última corrida do ano, quando fui campeão da StarMazda no ano passado. E também a segunda do ano passado em Road Atlanta, que fui pra nono na largada, mas ganhei a corrida. (N. do E.: essa eu ví in loco, e foi uma “virada de jogo” sem comentários).
Conta um pouco de como foi guiar os carros que você guiou aqui até agora: Skip, StarMazda, Atlantic, Infiniti Pro Series, protótipo Mazda-Courage na ALMS...
RM- O Skip foi o inicio de tudo, fiz o Nacional de Formula Dodge e foi assim que as coisas começaram a caminhar. Aprendí bastante, especialmente as pistas, e muitas delas continuo correndo até hoje. Os dois anos de Mazda foram muito importantes, aprendí mais sobre acerto de carro, aprendí a pilotar melhor em situações difíceis, a ter paciência e ser frio ao mesmo tempo, tive que me controlar desde o inicio do campeonato pois sabíamos que a constancia era o segredo, fomos bem constantes no inicio e ganhamos as 4 primeiras provas, e ainda tivemos mais 5 podiums.
Quanto aos carros em sí, o Skip Barber tem mais aderência mecânica do que aerodinâmica, e você está lá básicamente para aprender a guiar o carro, que desliza bastante.
O Mazda Pro Series para mim é o passo perfeito depois do Skip, e é um carro que também não tem tanta força aerodinâmica mas muito mais potência, então você é obrigado a trabalhar mais e aprender a criar aderência mecânica. O carro da Mazda Pro Series também “perdoa” mais, os pneus são tipo BIAS PLY, que “rolam mais”, e o perigo é que você acabe “driving around the problem”, ou seja, você acaba “resolvendo” um problema de acerto, com seu modo de pilotar. É um carro que às vezes dá para levar um pouco nas costas. Em comparação, na Atlantic que usa pneus radiais,a janela de acerto – aquela “faixa” do acerto onde o carro está bom, é muito menor.
O Infiniti Pro Series é um carro mais pesado e maior, com menos “asa” que o Atlantic, então o estilo e a técnica de guiar tem que ser mais lenta, mas mesmo assim ele tem 450 cavalos e exige respeito. Básicamente, tem que frear mais cedo, entrar mais devagar nas curvas, e ele anda mais alto e mais mole que o Atlantic.
Com o Atlantic, apesar de menos cavalos, ele também é mais leve, com mais “asa” e tamanho de pneus quase iguais ao IPS, e acaba contornando as curvas mais rápido, e ainda dá para freiar lá dentro. Grande parte disso são os pneus, que na Atlantic são radiais, muito mais “firmes”, o que te deixa andar mais com o carro mais baixo e com a suspensão mais dura. Com o Atlantic você pode ser muito mais agressivo, principalmente na freiada e entrada de curva.
O protótipo, o Mazda-Courage, vindo de monopostos, demora um pouco para se acostumar com o tamanho e potência (500 cavalos), mas é muito legal de se dirigir. Os freios também são de carbono, precisa freiar forte no início e logo aliviar a pressão, para não travar. A aproximação das curvas também deve ser mais devagar, pois o carro é pesado.

Ídolos ?
RM- Não tenho, mas tenho pilotos que admiro muito como pessoa e que guiam muito.O Senna, o Piquet, o Emerson, pilotos que são inspiração pra todos nós, sou amigo do Cristiano Da Matta e acho que ele guia muito, e um cara que posso contar sempre é o Oswaldo Negri, outro grande amigo que acelera muito e tá andando na Grand Am.
Categorias de desenvolvimento, USA X Europa ?
RM- Não sei se ia conseguir fazer o que estou fazendo hoje aqui, se tivesse ido para a Europa. Não gosto de comparar porque não tive a chance de ir Europa. Tive a chance nos EUA, gosto daqui por isso, quero fazer minha carreira aqui.
Algumas perguntas dos internautas:
O que você pensa à respeito do Serra Verde Racing Park, o autódromo que seria construído em Belo Horizonte ?
RM- Era nosso sonho desde que comecei a andar de kart lá em BH, foram vários os projetos, espero que o Serra Verde seja construído o mais rápido possível e que levem a ChampCar para lá, assim posso ficar na minha casa no fim de semana de corrida se estiver guiando lá ano que vem !
Como foi chegar aos EUA e arrasar os gringos no circuito de rua em St. Pete?
RM- Foi uma das minhas melhores experiencias em corrida! Sem contar o primeiro treino lá em St. Pete que fui visitar o muro na curva 8, mesmo assim fomos P1 naquele treino. Circuito de rua você tem que ter um pouco mais de respeito e eles são muito técnicos, bumps, zebras, detalhes que no final fazem uma diferença enorme. Todo treino muda um pouco, a pista está sempre melhorando, tem que prestar atenção também. Lembro que 5 minutos antes da minha classificação em St. Pete, eu estava coversando com um dos pilotos da IRL e ele me falou que a pista estava rápida...virei 2 segundos mais rápido que a pole do ano anterior.
Você acha que o automobilismo de base nos circuitos mistos dos EUA está acabando? Há pouco tempo ainda surgiam bons e razoáveis pilotos americanos de misto (Al Unser Jr.;Scot Pruet; Bryan Herta; Robby Gordon), mas agora surgem apenas garotos que só sabem correr em oval.
RM- Aqui nos EUA, na minha opinião no automobilismo de base, você tem que andar no Nacional de Formula Dodge, de Pro Mazda e de Atlantic ou Infiniti Pro.Tem que prestar atencao pra cair em equipes boas e não se queimar, acho que o kart aqui está melhorando bastante, e se eles seguirem esse caminho vai melhorar a qualidade, mas só os americanos que se dedicarem à isso vão poder, talvez, se destacarem em mistos.
Pessoalmente, acho que aprendí muito nesses três anos e nessas três categorias, e esse ano quero aprender ainda mais, para que ano que vem consiga defender nossas cores na ChampCar.
Quem, você calcula, serão seus maiores adversários na Atlantic esse ano ?
RM-O alemão Andreas Wirth, o americano Jonathan Bomarito, o francês Simon Pagenaud, o canadense James Hinchcliffe, o Rahal em algumas corridas e mais uns dez pilotos...a coisa está muito competitiva esse ano, qual foi a última vez que algum campeonato de acesso deu 2 milhões de dólares ao vencedor ?
Que conselho daria para um moleque (ou moleca) saindo do kart, ou de uma Fórmula-SP para vir para os Estados Unidos ? O que não pode deixar de trazer na mala ?
RM- Muita dedicação, e nunca tirar da cabeça que o que você quer pode sempre dar certo.
Labels: Artigo, Atlantic, CART, IRL, Opinião, Raphael Matos